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Envelhecimento: a falsa ameaça ao sistema de saúde

O envelhecimento ameaça a sustentabilidade dos sistemas públicos de saúde?

Para Unai Martín Roncero, professor da Universidade do País Basco, nada poderia estar mais longe da realidade: “A principal ameaça não é outra senão a mídia, o esforço ideológico e até acadêmico que está sendo feito para transformar saúde e atenção em uma ferramenta de negócios e lucro”.

A Espanha, como o resto das sociedades ocidentais, está passando por uma profunda mudança em sua estrutura etária, que foi fundamentalmente traduzida no aumento do número de pessoas idosas. Atualmente, pessoas com 65 anos ou mais representam pouco mais de 20% da população e esse percentual dobrará nas próximas quatro décadas.

No entanto, a partir de certos discursos políticos e midiáticos, esse sucesso social tem sido apresentado como um fardo ou a principal ameaça para o futuro de nossas sociedades.
Às vezes, essas previsões alarmistas escondem um claro interesse, uma vez que são incentivadas e financiadas por certos grupos financeiros, empresariais e inclusive ideológicos. Em outros, no entanto, eles são o resultado da ignorância ou de uma má interpretação dos fenômenos demográficos e sociais.
Um dos principais argumentos desses discursos surge da ideia de que o aumento da população acima de 65 anos implica em um aumento drástico da carga de doenças, incapacidade e, portanto, enorme pressão na atenção à saúde nos sistemas de saúde que serão, portanto, insustentáveis, como os conhecemos hoje. Algumas dessas vozes propõem a progressiva privatização dos sistemas de saúde como solução para este importante desafio.
No entanto, tem sido demonstrado que o impacto que o envelhecimento tem sobre o aumento dos gastos em saúde não é tão alto e não é, de todo modo, o principal responsável por seu crescimento, que deve ser procurado em outros processos sociais e, acima de tudo, econômico, afetando os cuidados de saúde atuais.

De fato, interpretar o aumento de idosos como um aumento de pessoas doentes é uma interpretação simplista e enganosa. Uma pessoa de 65 anos em 2018 tem pouco a ver com a de 65 anos no início do século, tanto em termos sociais quanto em termos de saúde. Essa pessoa de 65 anos agora tem maior semelhança em termos de saúde com uma pessoa que talvez tenha 60 anos naquela época. Nós já temos algumas evidências a esse respeito.

Menos anos de incapacidade e problemas de saúde

O declínio da mortalidade nas últimas décadas parece ter sido acompanhado em nosso contexto por um declínio nos anos de saúde precária e um aumento nos anos de boa saúde.
Por exemplo, os dados do País Basco mostram como o número de anos que uma pessoa espera viver com uma deficiência ou com problemas de saúde é inferior a 20 anos atrás, uma situação que contrasta com a imagem presente no imaginário coletivo.
Da mesma forma, contradiz o principal argumento de origem dessas visões alarmistas do envelhecimento como um perigo para sustentar o sistema de saúde.
A mudança na estrutura etária – não apenas o aumento da população idosa – gera importantes desafios em nossas sociedades, algumas das quais estão diretamente relacionadas à saúde e ao desempenho dos serviços de saúde. Sem avançar mais, o aumento das doenças crônicas, como resultado da mudança no padrão epidemiológico, está forçando nossos sistemas de saúde a profundas transformações em sua gestão.

O envelhecimento, por si só, não coloca em questão a sustentabilidade dos sistemas públicos de saúde, pois isso depende fundamentalmente da legitimidade social de que eles desfrutam.

A principal ameaça, portanto, não é outra senão o esforço midiático, ideológico e até mesmo acadêmico que está sendo feito para transformar saúde e atenção em uma ferramenta de negócios e lucro. A questão é importante, já que a saúde dos idosos (e mais cedo ou mais tarde todos seremos) vai para ela.

Por :Unai Martín Roncero é doutor en Sociologia e professor da Universidad del País Vasco (UPV/EHU) desde 2005. É membro do Grupo de Investigación en Determinantes Sociales de la Salud y Cambio Demográfico OPIK. Atualmente, suas principais linhas de pesquisa são a sociologia da saúde, especialmente a análise das desigualdades sociais em saúde e demografia. Artigo publicado na Agencia Sinc .

Fonte: www.portaldoenvelhecimento.com.br/      Em, 09/05/2018    Imagem: BigSlam

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