Em 02/02/2026 por Thaís Teixeira Carvalho
O termo New Older Living Trend (NOLT) surgiu nos Estados Unidos, mas com as redes sociais, já ganhou uma proporção internacional, diante de um conceito que se refere ao novo padrão estético de envelhecimento ativo que se apresenta nas redes sociais: pessoas com mais de 60 anos muito ativas física e cognitivamente, com uma apresentação muito conservada que se distancia da figura padrão de velho que nós conhecemos culturalmente, com um ar mais frágil, rugas e com algumas limitações de movimentos.
A ideia não apresenta uma clareza acadêmica, com um
desenvolvimento teórico estruturado e documento em registros públicos pelo que
foi possível apurar, mas tomou conta das redes sociais em nome das pessoas que
se identificam com a negação da velhice, diante de um comportamento muito mais
ativo, de forma a se reconhecer como uma pessoa adulta, mas não velha.
Diante da rápida transição demográfica no Brasil, com um
envelhecimento populacional acelerado, em um país tão desigual, é necessário
obter o devido discernimento: uma coisa é ser velho, outra coisa é ser NOLT.
O velho permanece sendo um tabu, uma fase da vida indesejada, enquanto NOLT é o
padrão de vida a ser alcançado quando se chega nessa fase da vida, a velhice.
Esse fenômeno que é muito comum na área de comunicação, onde
o desenvolvimento de siglas garante novas tendências a serem replicadas e se
tornarem mais engajadas nas redes sociais, como foi o que aconteceu com o
fenômeno em questão.
Sob a lente das ciências sociais, o NOLT pode ser analisado
para além de seu apelo estético ou mercadológico, a partir de seus impactos
estruturais e de sua dimensão simbólica. Trata-se de um dispositivo
contemporâneo de distinção social, nos termos de Pierre Bourdieu. O movimento
não surge para enfrentar as desigualdades históricas que atravessam o
envelhecimento, mas para reorganizar simbolicamente privilégios já existentes,
agora revestidos pela estética da longevidade ativa, do envelhecer bem e da autonomia
performada. O que se apresenta como inovação é, na prática, a atualização de
hierarquias sociais por meio de novos códigos culturais.
Diante de uma análise foucaultiana, o NOLT pode ser
compreendido como uma tecnologia de governamentalidade. Ele orienta e normatiza
condutas: como cuidar do corpo, da mente, do tempo e da própria casa. É capaz
de garantir o deslocamento do envelhecimento da esfera pública e coletiva para
o campo da escolha individual. Ao fazer isso, é possível reduzir a pressão
social por políticas públicas estruturais e normaliza-se a ideia de que
envelhecer bem é uma responsabilidade privada. Nesse processo, os privilégios
de acesso de determinados grupos sociais permanecem intactos, apenas
naturalizados sob a retórica do autocuidado e da autonomia.
A noção de “tendência” reforça esse deslocamento ao atribuir
ao indivíduo a responsabilidade quase exclusiva por seu percurso de
envelhecimento. Envelhecer bem passa a ser tratado como resultado de
planejamento pessoal, decisões corretas e investimentos adequados, e não como
um fenômeno profundamente condicionado por desigualdades sociais acumuladas ao
longo da vida, desde o acesso à educação e ao trabalho até as condições de
moradia, renda e cuidado.
Assim, quem não corresponde ao ideal do envelhecimento
bem-sucedido tende a ser interpretado como alguém que falhou em suas escolhas,
e não como expressão de estruturas sociais desiguais que limitam oportunidades
de forma sistemática. Esse fenômeno reforça a meritocracia que está ligada à
imagem do “velho”, sendo essa uma pessoa considerada como alguém que não se
cuida, não se esforça e não é “merecedora” de alcançar o envelhecimento
bem-sucedido.
A questão racial também não se apresenta evidente nas
discussões, mas está diretamente relacionada, diante da imagem pública do “novo
velho” ser majoritariamente branca. O velho periférico, preto, pardo,
dependente de políticas públicas ou de redes informais de cuidado, não cabe na
estética do NOLT, e por isso é invisibilizado. Não é que ele não exista. É que
ele não é desejável como narrativa de futuro e por isso permanece à margem da
sociedade.
Inserido no contexto do capitalismo tardio, o NOLT expressa
a ampliação da lógica mercantil sobre o ciclo da vida. O envelhecimento passa a
ser tratado como um campo de investimento contínuo, no qual corpo, mente e
estilo de vida devem ser permanentemente otimizados, sempre com alta
performance. Essa racionalidade dialoga diretamente com o neoliberalismo, que
desloca riscos sociais para o indivíduo e transforma direitos em
responsabilidades pessoais. Envelhecer bem deixa de ser uma condição
socialmente garantida e passa a ser um projeto de gestão individual, acessível
apenas a quem dispõe de capital econômico, cultural e simbólico acumulado ao
longo da vida.
Em termos de governamentalidade, o NOLT funciona como uma tecnologia suave de poder: ele redefine o que é envelhecer com dignidade, deslocando essa dignidade do campo do direito para o campo do consumo e do lifestyle. O risco político é claro: quanto mais o envelhecimento “ideal” é privatizado e estetizado, menos pressão social existe para políticas públicas universais e robustas.
De acordo com os fundamentos do escritor marxista francês,
Guy Debord, o NOLT também pode ser compreendido como expressão da sociedade do
espetáculo. O envelhecimento bem-sucedido não se afirma prioritariamente pela
experiência concreta, mas pela sua representação imagética de “tendência”.
Corpos ativos, rotinas produtivas, casas organizadas e afetos positivos são
convertidos em imagens circuláveis, produzindo uma velhice que precisa ser
visível, performada e validada publicamente. O vivido é substituído pelo vivido
aparente, e o envelhecimento real, com suas perdas, dependências e
contradições, torna-se indesejável como narrativa social.
Essa lógica encontra forte ressonância no que Jessé Souza
descreve como a moralização do mérito na classe média. O NOLT reforça a ideia
de que envelhecer bem é resultado de escolhas corretas, disciplina e esforço
individual, legitimando uma leitura moralizante da velhice. O “novo velho”
aparece como exemplo de sucesso, enquanto o velho pobre, doente ou dependente é
interpretado como alguém que falhou em planejar sua própria vida. Assim,
desigualdades estruturais são convertidas em falhas individuais, e a exclusão
social é recodificada como incapacidade pessoal.
Mais do que uma tendência, o NOLT revela um deslocamento
profundo na forma como a sociedade contemporânea lida com o envelhecimento. Ao
transformar a velhice em projeto individual, estética desejável e performance
permanente, o movimento não apenas redefine o que significa envelhecer bem, mas
também reorganiza quem pode acessar essa definição. O risco não está na
valorização da autonomia ou da vitalidade em si, mas na naturalização de que
elas sejam condições universais, quando são, na prática, privilégios socialmente
distribuídos, resultando no enfraquecimento de políticas públicas voltadas para
promover o envelhecimento bem-sucedido de forma igualitária.
Ao operar como tecnologia de governamentalidade, o NOLT
contribui para aliviar o Estado de suas responsabilidades estruturais,
deslocando para o indivíduo a tarefa de gerenciar riscos que são coletivos. O
envelhecimento deixa de ser entendido como resultado de trajetórias marcadas
por desigualdades históricas e passa a ser interpretado como escolha,
investimento e mérito. Trata-se de uma forma sutil, porém eficaz, de
despolitização da velhice.
Quando o envelhecimento “ideal” é privatizado, estetizado e
mercantilizado, ele deixa de ser um campo de disputa política e se torna um
marcador moral. A velhice passa a ser julgada, hierarquizada e classificada
entre as que “deram certo” e as que falharam, não por suas condições materiais
reais, mas por sua capacidade de aderir a um modelo normativo de corpo, consumo
e comportamento. Nesse cenário, o velho em situação de vulnerabilidade social e
dependente não desaparece: ele é silenciado, invisibilizado e excluído do
imaginário de futuro socialmente desejável.
Por isso, o debate não deve se limitar à adesão ou rejeição
da tendência, mas à pergunta que ela evita: quem pode envelhecer bem em uma
sociedade profundamente desigual? Recolocar o envelhecimento no campo dos
direitos, da justiça social e da responsabilidade coletiva é o desafio central.
Qualquer narrativa que ignore essa dimensão corre o risco de apenas atualizar
privilégios antigos sob uma nova estética: elegante, positiva e profundamente
excludente.
Referências
Bourdieu, P. A Distinção: Crítica Social do Julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.
Foucault, M. Microfísica do Poder (Governamentalidade). SP. Vozes, 1985.
Debord, G. A Sociedade do Espetáculo. Rio de janeiro: Contraponto, 1997.
Souza, J. A. Elite do Atraso. Da escravidão à ascensão da
extrema direita. Civilização Brasileira, 2025.
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